O menino Guilherme Carey, era apaixonado pelo estudo
da natureza. Enchia seu quarto de coleções de insetos, flores,
pássaros, ovos, ninhos, etc. Certo dia, ao tentar alcançar um
ninho de passarinhos, caiu de uma árvore alta. Ao experimentar
a segunda vez, caiu novamente. Insistiu a terceira vez: caiu e
quebrou uma perna. Algumas semanas depois, antes de a perna
sarar, Guilherme entrou em casa com o ninho na mão. - "Subiste
à árvore novamente?!" -exclamou sua mãe. - "Não pude evitar,
tinha de possuir o ninho, mamãe" - respondeu o menino.
Diz-se que Guilherme Carey, fundador das missões atuais,
não era dotado de inteligência superior e nem de qualquer dom
que deslumbrasse os homens. Entretanto, foi essa característica
de persistir, com espírito indômito e inconquistável, até
completar tudo quanto iniciara, que fez o segredo do
maravilhoso êxito da sua vida.
Quando Deus o chamava a iniciar qualquer tarefa, permanecia
firme, dia após dia, mês após mês e ano após ano,até
acabá-la. Deixou o Senhor utilizar-se de sua vida, não somente
para evangelizar durante um período de quarenta e um anos no
estrangeiro, mas também para executar a façanha por incrível
que pareça, de traduzir as Sagradas Escrituras em mais que
trinta línguas.
O avô e o pai do pequeno Guilherme eram sucessivamente
professor e sacristão (Igreja Anglicana) da Paróquia. Assim o filho
aprendeu o pouco que o pai podia ensinar-lhe. Mas não satisfeito
com isso, Guilherme continuou seus estudos sem mestre.
Aos doze anos adquiriu um exemplar do Vocabulário
Latino, por Dyche,. o qual decorou. Aos quatorze anos iniciou a
carreira como aprendiz de sapateiro. Na loja encontrou alguns
livros, dos quais se aproveitou para estudar. Assim iniciou o
estudo do grego. Foi nesse tempo que chegou a reconhecer que
era um pecador perdido, e começou a examinar cuidadosamente
as Escrituras.
Não muito depois da sua conversão, com 18 anos de
idade, pregou o seu primeiro sermão. Ao reconhecer que o
batismo por imersão é bíblico e apostólico, deixou a denominação
a que pertencia. Tomava emprestados livros para
estudar e, apesar de viver em pobreza, adquiria alguns livros
usados. Um de seus métodos para aumentar o conhecimento de
outras línguas, consistia em ler diariamente a Bíblia em latim,
em grego e em hebraico.
Com a idade de vinte anos, casou-se. Porém os membros
da igreja onde pregava eram pobres e Carey teve de continuar
seu ofício de sapateiro para ganhar o pão cotidiano. O fato de o
senhor Old, seu patrão, exibir na loja um par de sapatos
fabricados por Guilherme, como amostra, era prova da
habilidade do rapaz.
Foi durante o tempo que ensinava geografia em Moulton,
que Carey leu o livro As Viagens do Capitão Cook e Deus falou à
sua alma acerca do estado abjeto dos pagãos sem o Evangelho.
Na sua tenda de sapateiro afixou na parede um grande mapamundi,
que ele mesmo desenhara cuidadosamente. Incluíra
neste mapa todos os dizeres disponíveis: o número exato da
população, a flora e a fauna, as características dos indígenas,
etc., de todos os países.Enquanto consertava sapatos, levantava
os olhos, de vez em quando, para o mapa e meditava sobre as
condições dos vários povos e a maneira de os evangelizar. Foi
assim que sentiu mais e mais a chamada de Deus para preparar
a Bíblia, para os muitos milhões de indus, na própria língua
deles.
A denominação a que Guilherme pertencia, depois de
aceitar o batismo por imersão, achava-se em grande decadência
espiritual. Isto foi reconhecido por alguns dos ministros, os quais
concordaram em passar "uma hora em oração na primeira
segunda-feira de todos os meses" pedindo de Deus um grande
avivamento da denominação. De fato esperavam um
despertamento, mas, como acontece muitas vezes, não
pensaram na maneira em que Deus lhes responderia.
As igrejas de então não aceitavam a idéia, que consideravam
absurda, de levar o Evangelho aos pagãos. Certa vez,
numa reunião do ministério, Carey levantou-se e sugeriu que
ventilassem este assunto: O dever dos crentes em promulgar o
Evangelho às nações pagãs. O venerável presidente da reunião,
surpreendido, pôs-se em pé e gritou: "Jovem, sente-se! Quando
agradar a Deus converter os pagãos, ele o fará sem o seu
auxílio, nem o meu."
Porém o fogo continuou a arder na alma de Guilherme
Carey. Durante os anos que se seguiram esforçou-se ininterruptamente,
orando, escrevendo e falando sobre o assunto de
levar Cristo a todas as nações. Em maio de 1792, pregou seu
memorável sermão sobre Isaías 54.2,3: "Amplia o lugar da tua
tenda, e as cortinas das tuas habitações se estendam; não o
impeças; alonga as tuas cordas, e firma bem as tuas estacas.
Porque transbordarás à mão direita e à esquerda; e a tua
posteridade possuirá as nações e fará que sejam habitadas as
cidades assoladas."
Discursou sobre a importância de esperar grandes coisas
de Deus e, em seguida, enfatizou a necessidade de tentar
grandes coisas para Deus.
O auditório sentiu-se culpado de negar o Evangelho aos
países pagãos, a ponto de "levantar as vozes em choro." Foi
então organizada a primeira sociedade missionária na história
das igrejas de Cristo para a pregação do Evangelho entre os
povos nunca evangelizados. Alguns como Brainerd, Eliot e
Schwartz já tinham ido pregar em lugares distantes, mas sem
que as igrejas se unissem para sustentá-los.
Apesar de a sociedade ser o resultado da persistência e
esforços de Carey, ele mesmo não tomou parte na sua formação.
O seguinte, porém, foi escrito acerca dele nesse tempo:
"Aí está Carey, de estatura pequena, humilde de espírito,
quieto e constante; tem transmitido o espírito missionário aos
corações dos irmãos, e agora quer que saibam da sua prontidão
em ir onde quer que eles desejem, e está bem contente que
formulem todos os planos".
Nem mesmo com esta vitória, foi fácil para Guilherme
Carey concretizar o sonho de levar Cristo aos países que jaziam
nas trevas. Dedicava o seu espírito indômito a alcançar o alvo
que Deus lhe marcara.
A igreja onde pregava não consentia que deixasse o
pastorado: somente com a visita dos membros da sociedade a
ela é que este problema foi resolvido. No relatório da igreja
escreveram: "Apesar de concordar com ele, não achamos bom
que nos deixe aquele a quem amamos mais que a nossa própria
alma."
Entretanto, o que mais sentiu foi quando a sua esposa
recusou terminantemente deixar a Inglaterra com os filhos.
Carey estava tão certo de que Deus o chamava para trabalhar na
Índia que nem por isso vacilou.
Havia outro problema que parecia insolúvel: Era proibida a
entrada de qualquer missionário na Índia. Sob tais circunstâncias
era inútil pedir licença para entrar. Nestas condições,
conseguiram embarcar sem esse documento. Infelizmente o
navio demorou algumas semanas e, pouco antes de partir, os
missionários receberam ordem de desembarcar.
A sociedade missionária, apesar de tantos contratempos,
continuou a confiar em Deus; conseguiram granjear dinheiro e
compraram passagem para a Índia em um navio dinamarquês.
Uma vez mais Carey rogou à sua querida esposa que o
acompanhasse. Ela ainda persistia na recusa e nosso herói, ao
despedir-se dela, disse: "Se eu possuísse o mundo inteiro, daria
alegremente tudo pelo privilégio de levar-te e os nossos queridos
filhos comigo; mas o sentido do meu dever sobrepuja todas as
outras considerações. Não posso voltar para trás sem incorrer
em culpa a minha alma."
Porém, antes de o navio partir, um dos missionários foi à
casa de Carey. Grande foi a surpresa e o regozijo de todos ao
saberem que esse missionário conseguiu induzir a esposa de
Carey a acompanhar o seu marido. Deus comoveu o coração do
comandante do navio a levá-la em companhia dos filhos, sem
pagar passagem.
Certamente a viagem a vela não era tão cômoda como
nos vapores modernos. Apesar dos temporais, Carey aproveitouse
do ensejo para estudar o bengali e ajudar um dos
missionários na obra de verter o livro de Gênesis para a língua
bengaleza.
Guilherme Carey aprendeu suficiente o bengali, durante a
viagem, para conversar com o povo. Pouco depois de
desembarcar, começou a pregar e os ouvintes vinham para ouvir
em número sempre crescente.
Carey percebeu a necessidade imperiosa de o povo possuir
a Bíblia na própria língua e, sem demora, entregou-se à
tarefa de traduzi-la. A rapidez com que aprendeu as línguas da
Índia é uma admiração para os maiores lingüistas.
Ninguém sabe quantas vezes o nosso herói se mostrou
desanimadíssimo na Índia. A esposa não tinha interesse nos
esforços de seu marido e enlouqueceu. A maior parte dos
ingleses com quem Carey teve contato, o tinham como louco;
durante quase dois anos nenhuma carta da Inglaterra lhe chegou
às mãos. Muitas vezes faltava aos seus dinheiro e alimento. Para
sustentar a família, o missionário tornou-se lavrador da terra e
empregou-se em uma fábrica de anil.
Durante mais de trinta anos Carey foi professor de línguas
orientais no colégio de Fort Williams. Fundou também, o
Serampore College para ensinar os obreiros. Sob a sua direção, o
colégio prosperou, preenchendo um grande vácuo na
evangelização do país.
Ao chegar à Índia, Carey continuou os estudos que começara
quando menino. Não somente fundou a Sociedade de
Agricultura e Horticultura, mas criou um dos melhores jardins
botânicos, redigiu e publicou o "Hortus Bengalensis". O livro
"Flora Índica", outra de suas obras, foi considerada obra-prima
por muitos anos.
Não se deve concluir, contudo, que, para Guilherme Carey,
a horticultura fosse mais do que um passatempo. Passou,
também, muito tempo ensinando nas escolas de crianças
pobres. Mas, acima de tudo, sempre lhe ardia no coração o
desejo de se esforçar na obra de ganhar almas.
Quando um de seus filhos começou a pregar, Carey escreveu:
"Meu filho, Félix, respondeu à chamada para pregar o
Evangelho". Anos depois, quando esse filho aceitou o cargo de
embaixador da Grã Bretanha no Sião, o pai, desapontado e
angustiado, escreveu para um amigo: "Félix encolheu-se até
tornar-se um embaixador!"
Durante o período de quarenta e um anos, que passou na
Índia, não visitou a Inglaterra. Falava, embora com dificuldade,
mais de trinta línguas da Índia, dirigia a tradução das Escrituras
em todas elas e foi apontado ao serviço árduo de tradutor oficial
do governo. Escreveu várias gramáticas indianas e compilou
notáveis dicionários dos idiomas bengali, marati e sânscrito. O
dicionário do idioma bengali consta de três volumes e inclui
todas as palavras da língua, traçadas até a sua origem e
definidas em todos os seus sentidos.
Tudo isto era possível porque sempre economizava o
tempo, segundo se deduz do que escreveu seu biógrafo:
"Desempenhava estas tarefas hercúleas sem pôr em risco
a sua saúde, aplicando-se metódica e rigorosamente ao seu
programa de trabalho, ano após ano. Divertia-se, passando de
uma tarefa para outra. Dizia que se perde mais tempo,
trabalhando inconstante e indolentemente do que nas
interrupções de visitas. Observava, portanto, a norma de entrar,
sem vacilar, na obra marcada e de não deixar coisa alguma
desviar a sua atenção para qualquer outra coisa durante aquele
período."O seguinte escrito pedindo desculpas a um amigo pela
demora em responder-lhe a carta, mostra como muitas das suas
obras avançavam juntas:
"Levantei-me hoje às seis, li um capítulo da Bíblia
hebraica; passei o resto do tempo, até às sete, em oração. Então
assisti ao culto doméstico em bangali, com os criados. Enquanto
esperava o chá, li um pouco em persa com um munchi que me
esperava; li também, antes de comer, uma porção das Escrituras
em industani. Logo depois de comer sentei-me, com um pundite
que me esperava, para continuar a tradução do sânscrito para o
ramayuma. Trabalhamos até as dez horas, quando então fui ao
colégio para ensinar até quase as duas horas. Ao voltar para
casa, li as provas da tradução de Jeremias em bengali, só findando
em tempo para jantar. Depois do jantar, traduzi, ajudado pelo
pundite chefe do colégio, a maior parte do capítulo oito de
Mateus em sânscrito. Nisto fiquei ocupado até as seis. Depois
das seis assentei-me com um pundite de Telinga, para traduzir
do sânscrito para a língua dele. Às sete comecei a meditar sobre
a mensagem para um sermão e preguei em inglês, às sete e
meia. Cerca de quarenta pessoas assistiram ao culto, entre as
quais, um juiz do Sudder Dewany'dawlut. Depois do culto, o juiz
contribuiu com 500 rupias para a construção de um novo templo.
Todos os que assistiram ao culto tinham saído às nove horas;
sentei-me para traduzir o capítulo onze de Ezequiel para o
bengali. Findei às onze, e agora estou escrevendo esta carta. Depois,
encerrei o dia com oração. Não há dia em que disponha de
mais tempo do que isto, mas o programa varia."
Com o avançar da idade, seus amigos insistiam em que
diminuísse os seus esforços, mas a sua aversão à inatividade era
tal, que continuava trabalhando mesmo quando a força física
não dava para a necessária energia mental. Por fim, viu-se
obrigado a ficar de cama, onde continuava a corrigir as provas
das traduções.
Finalmente, em 9 de junho de 1834, com a idade de 73
anos, Guilherme Carey dormiu em Cristo.
A humildade era uma das características mais destacadas
da sua vida. Conta-se que, no zênite da fama, ouviu certo oficial
inglês perguntar cinicamente: - "O grande doutor Carey não era
sapateiro?" Carey, ao ouvir casualmente a pergunta, respondeu:
"- Não, meu amigo, era apenas um remendão."
Quando Guilherme Carey chegou à Índia, os ingleses
negaram-lhe permissão para desembarcar. Ao morrer, porém, o
governo mandou içar as bandeiras a meia haste em honra de um
herói que fizera mais para a Índia do que todos os generais
britânicos.
Calcula-se que traduziu a Bíblia para a terça parte dos
habitantes do mundo. Assim escreveu um de seus sucessores, o
missionário Wenger: "Não sei como Carey conseguiu fazer nem a
quarta parte das suas traduções. Faz cerca de vinte anos (em
1855), que alguns missionários, ao apresentarem o Evangelho no
Afeganistão (país da Ásia central), acharam que a única versão
que esse povo entendia era o Pushtoo, feita em Sarampore por
Carey."
O corpo de Guilherme Carey descansa, mas a sua obra
continua a servir de bênção a uma grande parte do mundo.
(Extraido do Livro Heróis da Fé,Orlando Boyer)
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JÔNATAS EDWARDS - GRANDE DESPERTADOR (1703-1758)
Há dois séculos que o mundo fala do famoso sermão:
Pecadores nas mãos de um Deus irado e dos ouvintes que se
agarravam aos bancos pensando que iam cair no fogo eterno.
Esse fato foi, apenas, um dos muitos que aconteceram nas
reuniões em que o Espírito Santo desvendava os olhos dos
presentes para eles contemplarem as glórias do Céu e a
realidade do castigo que está bem perto daqueles que estão
afastados de Deus.
Jônatas Edwards, entre os homens, era o vulto maior
nesse avivamento, que se intitulava O grande despertamento.
Sua vida é um exemplo destacado de consagração ao Senhor
para o desenvolvimento maior do intelecto e, sem qualquer
interesse próprio, de deixar o Espírito Santo usar o mesmo
intelecto como instrumento nas suas mãos. Amava a Deus, não
somente de coração e alma, mas também de todo o
entendimento. "Sua mente prodigiosa apoderava-se das
verdades mais profundas". Contudo, "sua alma era, de fato, um
santuário do Espírito Santo". Sob aparente calma exterior, ardia
nele o fogo divino, como um vulcão.
Os crentes atuais devem a esse herói, graças à sua perseverança
em orar e estudar sob a direção do Espírito, a volta às
várias doutrinas e práticas da igreja primitiva. Grande é o fruto
da dedicação do lar em que Edwards nasceu e se criou. Seu pai
foi o amado pastor de uma só igreja durante um período de
sessenta e quatro anos. Sua piedosa mãe era filha de um
pregador que pastoreou uma igreja durante mais de cinqüenta
anos.
Dez das irmãs de Jônatas, quatro eram mais velhas do que
ele e seis mais novas. "Muitas foram as orações que os pais
ofereceram a Deus, para que o único e amado filho fosse cheio
do Espírito Santo, e que se tornasse grande perante o Senhor.
Não somente oravam assim, fervorosa e constantemente, mas
mostravam-se igualmente zelosos em criá-lo para Deus. As
orações, à volta da lareira, os estimularam a se esforçarem, e
seus esforços redobrados os motivaram a orarem mais
fervorosamente... O ensino religioso e permanente resultou em
Jônatas conhecer intimamente a Deus, quando ainda criança".
Quando Jônatas tinha sete ou oito anos, houve um
despertamento na igreja de seu pai, e o menino acostumou-se a
orar sozinho, cinco vezes, todos os dias, e a chamar outros da
sua idade para orarem com ele.
Citamos aqui as suas palavras sobre esse assunto: "A
primeira experiência, de que me lembro, de sentir no íntimo a
delícia de Deus e das coisas divinas, foi ao ler as palavras de 1
Timóteo 1.7: 'Ora, ao Rei dos séculos, imortal, invisível; ao único
Deus seja honra e glória para todo o sempre. Amém'. Sentia a
presença de Deus até arder o coração e abrasar a alma de tal
maneira, que não sei descrevê-la... Gostava de passar o tempo
olhando para a lua e, de dia, a contemplar as nuvens e os céus.
Passava muito tempo observando a glória de Deus, revelada na
natureza e cantando as minhas contemplações do Criador e
Redentor... Antes me sentia demasiado assombrado ao ver os
relâmpagos e ouvir a troar do trovão. Porém mais tarde eu me
regozijava ao ouvir a majestosa e terrível voz de Deus na
trovoada". Antes de completar treze anos, iniciou seu curso em
Yale College, onde, no segundo ano, leu atentamente a famosa
obra de Locke: Ensaio sobre o entendimento humano. Vê-se, nas
suas próprias palavras acerca dessa obra, o grande
desenvolvimento intelectual do moço: "Achei mais gozo nisso do
que o mais ávido avarento, em ajuntar grandes quantidades de
ouro e prata de tesouros recém-adquiridos".
Edwards, antes de completar dezessete anos, diplomou-se
no Yale College com as maiores honras. Sempre estudava com
esmero, mas também conseguia tempo para estudar a Bíblia,
diariamente. Depois de. diplomar-se, continuou seus estudos em
Yale, durante dois. anos e foi então separado para o ministério.
Foi nessa altura que seu biógrafo escreveu acerca de seu
costume de dedicar certos dias para jejuar, orar e examinar-se a
si mesmo.
Acerca da sua consagração, com idade de vinte anos,
Edwards escreveu: "Dediquei-me solenemente a Deus e o fiz por
escrito, entregando a mim mesmo e tudo que me pertencia ao
Senhor, para não ser mais meu em qualquer sentido, para não
me comportar como quem tivesse direitos de forma alguma...
travando, assim, uma batalha com o mundo, a carne e Satanás
até o fim da vida".
Alguém assim se referiu a Jônatas: "Sua constante e
solene comunhão com Deus, em secreto, fazia com que o rosto
dele brilhasse perante o próximo, e sua aparência, semblante,
palavras e todo o seu comportamento eram acompanhados por
seriedade, gravidade e solenidade".
Aos vinte e quatro anos casou-se com Sara Pierrepont,
filha de um pastor, e desse enlace nasceram, como na família do
pai de Edwards, onze filhos.
Ao lado de Jônatas Edwards, no Grande Despertamento,
estava o nome de Sara Edwards, sua fiel esposa e ajudadora em
tudo. Como seu marido, ela nos serve como exemplo de rara
intelectualidade. Profundamente estudiosa, inteiramente
entregue ao serviço de Deus, ela era conhecida por sua santa
dedicação ao lar, pelo modo de criar seus filhos e pela economia
que praticava, movida pelas palavras de Cristo: "Para que nada
se perca". Mas antes de tudo, tanto ela como seu marido eram
conhecidos por suas experiências em oração. Faz-se menção
destacada especialmente dum período de três anos, durante o
qual, apesar de gozar de perfeita saúde, ficava repetidas vezes
sem forças, por causa das revelações do Céu. A sua vida inteira
foi de intenso gozo no Senhor.
Jônatas Edwards costumava passar treze horas, todos os
dias, estudando e orando. Sua esposa, também, diariamente o
acompanhava na oração. Depois da última refeição, ele deixava
toda a lida, a fim de passar uma hora com a família.
- Mas, quais as doutrinas de que a igreja havia esquecido e
quais as que Edwards começou a ensinar e a observar de novo,
com manifestações tão sublimes?
Basta uma leitura superficial para descobrir que a doutrina,
à qual deu mais ênfase, foi a do novo nascimento, como
sendo uma experiência certa e definida, em contraste com a
idéia da Igreja Romana e de várias denominações.
O evento que marcou o começo do Grande Despertamento
foi uma série de sermões feitos por Edwards sobre a doutrina da
justificação pela fé, que fez os ouvintes sentirem a verdade das
Escrituras, de que toda a boca ficará fechada no dia de juízo, e
que "não há coisa alguma que, por um momento, evite que o
pecador caia no Inferno, senão o bel prazer de Deus".
É impossível avaliar o grau do poder de Deus, derramado
para despertar milhares de almas, para a salvação, sem primeiro
nos lembrarmos das condições das igrejas da Nova Inglaterra, e
do mundo inteiro, nessa época. Quem, até hoje, não se admira
do heroísmo dos puritanos que colonizaram as florestas da Nova
Inglaterra? Passara, porém, essa glória e a igreja, indiferente e
cheia de pecado, se encontrava face com o maior desastre.
Parecia que Deus não queria abençoar a obra dos puritanos,
obra que existiu unicamente para sua glória. Por isso, no mesmo
grau que havia coragem e ardor entre os pioneiros, houve entre
seus filhos, perplexidade e confusão. Se não pudessem alcançar,
de novo, a espiritualidade, só lhes restava esperar o juízo dos
céus.O famoso sermão de Edwards, ''Pecadores nas mãos de um
Deus irado", merece menção especial.
O povo, ao entrar para o culto, mostrava um espírito leviano,
e mesmo de desrespeito, diante dos cinco pregadores que
estavam presentes. Jônatas Edwards foi escolhido para pregar.
Era homem de dois metros de altura; seu rosto tinha aspecto
quase feminino, e o corpo magro de jejuar e orar. Sem quaisquer
gestos, encostado num braço sobre a tribuna, segurando o
manuscrito na outra mão, falava em voz monótona. Discursou
sobre o texto de Deuteronômio 32.35: "Ao tempo em que
resvalar o seu pé".
Depois de explicar a passagem, acrescentou que nada
evitava, por um momento, que os pecadores caíssem no Inferno,
a não ser a própria vontade de Deus; que Deus estava mais
encolerizado com alguns dos ouvintes do que com muitas
pessoas que já estavam no Inferno; que o pecado era como um
fogo encerrado dentro do pecador e pronto, com a permissão de
Deus, a transformar-se em fornalhas de fogo e enxofre, e que
somente a vontade do Deus indignado os guardava da morte
instantânea.
Prosseguiu, então, aplicando o texto ao auditório: "Aí está
o Inferno com a boca aberta. Não existe coisa alguma sobre a
qual vós vos possais firmar e segurar. Entre vós e o Inferno
existe apenas a atmosfera... há, atualmente, nuvens negras da
ira de Deus pairando sobre vossas cabeças, predizendo
tempestades espantosas, com grandes trovões. Se não existisse
a vontade soberana de Deus, que é a única coisa para evitar o
ímpeto do vento até agora, serieis destruídos e vos tornaríeis
como a palha da eira... O Deus que vos segura na mão, sobre o
abismo do Inferno, mais ou menos como o homem segura uma
aranha ou outro inseto nojento sobre o fogo, durante um
momento, para deixá-lo cair depois, está sendo provocado em
extremo... Não há que admirar, se alguns de vós com saúde e
calmamente sentados aí nos bancos, passarem para lá antes de
amanhã..."
O resultado do sermão foi como se Deus arrancasse um véu dos
olhos da multidão para contemplar a realidade e o horror da
posição em que estavam. Nessa altura o sermão foi interrompido
pelos gemidos dos homens e os gritos das mulheres; quase
todos ficaram de pé, ou caídos no chão. Foi como se um furacão
soprasse e destruísse uma floresta. Durante a noite inteira a
cidade de Enfield ficou como uma fortaleza sitiada. Ouvia-se, em
quase todas as casas, o clamor das almas que, até aquela hora,
confiavam na sua própria justiça. Esperavam que, a qualquer
momento, o Cristo descesse dos céus com os anjos e apóstolos
ao lado, e que os túmulos entregassem os mortos que neles
havia.
Tais vitórias, contra o reino das trevas, foram ganhas de
joelhos. Edwards não abandonara, nem deixara de gozar os
privilégios das orações, costume que vinha desde a meninice.
Continuou a freqüentar, também, os lugares solitários na floresta
onde podia ter comunhão com Deus. Como um exemplo citamos
a sua experiência com a idade de trinta e quatro anos, quando
entrou na floresta, a cavalo. Lá, prostrado em terra, foi-lhe
concedido ter uma visão tão preciosa da graça, amor e
humilhação de Cristo como Mediador, que passou uma hora
vencido por uma torrente de lágrimas e pranto.
Como era de esperar, o Maligno tentou anular a obra
gloriosa do Espírito Santo no "Grande Despertamento",
atribuindo tudo ao fanatismo. Em sua defesa Edwards escreveu :
"Deus, conforme as Escrituras, faz coisas extraordinárias. Há
motivos para crer, pelas profecias da Bíblia, que sua obra mais
maravilhosa seria feita nas últimas épocas do mundo. Nada se
pode opor às manifestações físicas, como as lágrimas, gemidos,
gritos, convulsões, falta de forças... De fato, é natural esperar, ao
lembrarmo-nos da relação entre o corpo e o espírito, que tais
coisas aconteçam. Assim falam as Escrituras: do carcereiro que
caiu perante Paulo e Silas, angustiado e tremendo; do Salmista
que exclamou, sob a convicção do pecado: 'Envelheceram os
meus ossos pelo meu bramido durante o dia todo' (Salmo 32.3);
dos discípulos, que, na tempestade do lago, clamaram de medo;
da Noiva, do Cântico dos Cânticos, que ficou vencida, pelo amor
de Cristo, até desfalecer..."
Certo é que na Nova Inglaterra começou, em 1740, um
dos maiores avivamentos dos tempos modernos. É igualmente
certo que este movimento se iniciou, não com os sermões
célebres de Edwards, mas com a firme convicção deste, de que
há uma "obra direta que o Espírito divino faz na alma humana".
Note-se bem: Não foram seus sermões monótonos, nem a
eloqüência extraordinária de alguns, como Jorge Whitefield, mas,
sim, a obra do Espírito Santo no coração dos mortos
espiritualmente, que, "começando em Northampton, espalhou-se
por toda a Nova Inglaterra e pelas colônias da América do Norte,
chegando até a Escócia e a Inglaterra". De uma época de maior
decadência, a Igreja de Cristo, entre a população escassa da
Nova Inglaterra, despertou e foram arrebatadas de trinta a
cinqüenta mil almas do Inferno durante um período de dois a
três anos.
No meio das suas lutas, sem ninguém esperar, a vida de
Jônatas Edwards foi tirada da Terra. Apareceu a varíola em
Princeton e um hábil médico foi chamado de Filadélfia para
inocular os estudantes. O nosso pregador e duas de suas filhas
foram também vacinados. Na febre que resultou, as forças de
nosso herói diminuíram gradualmente até que, um mês depois,
faleceu.
Assim diz um de seus biógrafos: "Em todo o mundo onde
se falava o inglês, era considerado o maior erudito desde os dias
do apóstolo Paulo ou de Agostinho".
Para nós, a vida de Jônatas Edwards é uma das muitas
provas de que Deus não quer que desprezemos as faculdades
intelectuais que Ele nos concede, mas que as desenvolvamos,
sob a direção do Espírito Santo, e que as entreguemos
desinteressadamente para o seu uso.
(Extraido do Livro Heróis da Fé,Orlando Boyer)
Pecadores nas mãos de um Deus irado e dos ouvintes que se
agarravam aos bancos pensando que iam cair no fogo eterno.
Esse fato foi, apenas, um dos muitos que aconteceram nas
reuniões em que o Espírito Santo desvendava os olhos dos
presentes para eles contemplarem as glórias do Céu e a
realidade do castigo que está bem perto daqueles que estão
afastados de Deus.
Jônatas Edwards, entre os homens, era o vulto maior
nesse avivamento, que se intitulava O grande despertamento.
Sua vida é um exemplo destacado de consagração ao Senhor
para o desenvolvimento maior do intelecto e, sem qualquer
interesse próprio, de deixar o Espírito Santo usar o mesmo
intelecto como instrumento nas suas mãos. Amava a Deus, não
somente de coração e alma, mas também de todo o
entendimento. "Sua mente prodigiosa apoderava-se das
verdades mais profundas". Contudo, "sua alma era, de fato, um
santuário do Espírito Santo". Sob aparente calma exterior, ardia
nele o fogo divino, como um vulcão.
Os crentes atuais devem a esse herói, graças à sua perseverança
em orar e estudar sob a direção do Espírito, a volta às
várias doutrinas e práticas da igreja primitiva. Grande é o fruto
da dedicação do lar em que Edwards nasceu e se criou. Seu pai
foi o amado pastor de uma só igreja durante um período de
sessenta e quatro anos. Sua piedosa mãe era filha de um
pregador que pastoreou uma igreja durante mais de cinqüenta
anos.
Dez das irmãs de Jônatas, quatro eram mais velhas do que
ele e seis mais novas. "Muitas foram as orações que os pais
ofereceram a Deus, para que o único e amado filho fosse cheio
do Espírito Santo, e que se tornasse grande perante o Senhor.
Não somente oravam assim, fervorosa e constantemente, mas
mostravam-se igualmente zelosos em criá-lo para Deus. As
orações, à volta da lareira, os estimularam a se esforçarem, e
seus esforços redobrados os motivaram a orarem mais
fervorosamente... O ensino religioso e permanente resultou em
Jônatas conhecer intimamente a Deus, quando ainda criança".
Quando Jônatas tinha sete ou oito anos, houve um
despertamento na igreja de seu pai, e o menino acostumou-se a
orar sozinho, cinco vezes, todos os dias, e a chamar outros da
sua idade para orarem com ele.
Citamos aqui as suas palavras sobre esse assunto: "A
primeira experiência, de que me lembro, de sentir no íntimo a
delícia de Deus e das coisas divinas, foi ao ler as palavras de 1
Timóteo 1.7: 'Ora, ao Rei dos séculos, imortal, invisível; ao único
Deus seja honra e glória para todo o sempre. Amém'. Sentia a
presença de Deus até arder o coração e abrasar a alma de tal
maneira, que não sei descrevê-la... Gostava de passar o tempo
olhando para a lua e, de dia, a contemplar as nuvens e os céus.
Passava muito tempo observando a glória de Deus, revelada na
natureza e cantando as minhas contemplações do Criador e
Redentor... Antes me sentia demasiado assombrado ao ver os
relâmpagos e ouvir a troar do trovão. Porém mais tarde eu me
regozijava ao ouvir a majestosa e terrível voz de Deus na
trovoada". Antes de completar treze anos, iniciou seu curso em
Yale College, onde, no segundo ano, leu atentamente a famosa
obra de Locke: Ensaio sobre o entendimento humano. Vê-se, nas
suas próprias palavras acerca dessa obra, o grande
desenvolvimento intelectual do moço: "Achei mais gozo nisso do
que o mais ávido avarento, em ajuntar grandes quantidades de
ouro e prata de tesouros recém-adquiridos".
Edwards, antes de completar dezessete anos, diplomou-se
no Yale College com as maiores honras. Sempre estudava com
esmero, mas também conseguia tempo para estudar a Bíblia,
diariamente. Depois de. diplomar-se, continuou seus estudos em
Yale, durante dois. anos e foi então separado para o ministério.
Foi nessa altura que seu biógrafo escreveu acerca de seu
costume de dedicar certos dias para jejuar, orar e examinar-se a
si mesmo.
Acerca da sua consagração, com idade de vinte anos,
Edwards escreveu: "Dediquei-me solenemente a Deus e o fiz por
escrito, entregando a mim mesmo e tudo que me pertencia ao
Senhor, para não ser mais meu em qualquer sentido, para não
me comportar como quem tivesse direitos de forma alguma...
travando, assim, uma batalha com o mundo, a carne e Satanás
até o fim da vida".
Alguém assim se referiu a Jônatas: "Sua constante e
solene comunhão com Deus, em secreto, fazia com que o rosto
dele brilhasse perante o próximo, e sua aparência, semblante,
palavras e todo o seu comportamento eram acompanhados por
seriedade, gravidade e solenidade".
Aos vinte e quatro anos casou-se com Sara Pierrepont,
filha de um pastor, e desse enlace nasceram, como na família do
pai de Edwards, onze filhos.
Ao lado de Jônatas Edwards, no Grande Despertamento,
estava o nome de Sara Edwards, sua fiel esposa e ajudadora em
tudo. Como seu marido, ela nos serve como exemplo de rara
intelectualidade. Profundamente estudiosa, inteiramente
entregue ao serviço de Deus, ela era conhecida por sua santa
dedicação ao lar, pelo modo de criar seus filhos e pela economia
que praticava, movida pelas palavras de Cristo: "Para que nada
se perca". Mas antes de tudo, tanto ela como seu marido eram
conhecidos por suas experiências em oração. Faz-se menção
destacada especialmente dum período de três anos, durante o
qual, apesar de gozar de perfeita saúde, ficava repetidas vezes
sem forças, por causa das revelações do Céu. A sua vida inteira
foi de intenso gozo no Senhor.
Jônatas Edwards costumava passar treze horas, todos os
dias, estudando e orando. Sua esposa, também, diariamente o
acompanhava na oração. Depois da última refeição, ele deixava
toda a lida, a fim de passar uma hora com a família.
- Mas, quais as doutrinas de que a igreja havia esquecido e
quais as que Edwards começou a ensinar e a observar de novo,
com manifestações tão sublimes?
Basta uma leitura superficial para descobrir que a doutrina,
à qual deu mais ênfase, foi a do novo nascimento, como
sendo uma experiência certa e definida, em contraste com a
idéia da Igreja Romana e de várias denominações.
O evento que marcou o começo do Grande Despertamento
foi uma série de sermões feitos por Edwards sobre a doutrina da
justificação pela fé, que fez os ouvintes sentirem a verdade das
Escrituras, de que toda a boca ficará fechada no dia de juízo, e
que "não há coisa alguma que, por um momento, evite que o
pecador caia no Inferno, senão o bel prazer de Deus".
É impossível avaliar o grau do poder de Deus, derramado
para despertar milhares de almas, para a salvação, sem primeiro
nos lembrarmos das condições das igrejas da Nova Inglaterra, e
do mundo inteiro, nessa época. Quem, até hoje, não se admira
do heroísmo dos puritanos que colonizaram as florestas da Nova
Inglaterra? Passara, porém, essa glória e a igreja, indiferente e
cheia de pecado, se encontrava face com o maior desastre.
Parecia que Deus não queria abençoar a obra dos puritanos,
obra que existiu unicamente para sua glória. Por isso, no mesmo
grau que havia coragem e ardor entre os pioneiros, houve entre
seus filhos, perplexidade e confusão. Se não pudessem alcançar,
de novo, a espiritualidade, só lhes restava esperar o juízo dos
céus.O famoso sermão de Edwards, ''Pecadores nas mãos de um
Deus irado", merece menção especial.
O povo, ao entrar para o culto, mostrava um espírito leviano,
e mesmo de desrespeito, diante dos cinco pregadores que
estavam presentes. Jônatas Edwards foi escolhido para pregar.
Era homem de dois metros de altura; seu rosto tinha aspecto
quase feminino, e o corpo magro de jejuar e orar. Sem quaisquer
gestos, encostado num braço sobre a tribuna, segurando o
manuscrito na outra mão, falava em voz monótona. Discursou
sobre o texto de Deuteronômio 32.35: "Ao tempo em que
resvalar o seu pé".
Depois de explicar a passagem, acrescentou que nada
evitava, por um momento, que os pecadores caíssem no Inferno,
a não ser a própria vontade de Deus; que Deus estava mais
encolerizado com alguns dos ouvintes do que com muitas
pessoas que já estavam no Inferno; que o pecado era como um
fogo encerrado dentro do pecador e pronto, com a permissão de
Deus, a transformar-se em fornalhas de fogo e enxofre, e que
somente a vontade do Deus indignado os guardava da morte
instantânea.
Prosseguiu, então, aplicando o texto ao auditório: "Aí está
o Inferno com a boca aberta. Não existe coisa alguma sobre a
qual vós vos possais firmar e segurar. Entre vós e o Inferno
existe apenas a atmosfera... há, atualmente, nuvens negras da
ira de Deus pairando sobre vossas cabeças, predizendo
tempestades espantosas, com grandes trovões. Se não existisse
a vontade soberana de Deus, que é a única coisa para evitar o
ímpeto do vento até agora, serieis destruídos e vos tornaríeis
como a palha da eira... O Deus que vos segura na mão, sobre o
abismo do Inferno, mais ou menos como o homem segura uma
aranha ou outro inseto nojento sobre o fogo, durante um
momento, para deixá-lo cair depois, está sendo provocado em
extremo... Não há que admirar, se alguns de vós com saúde e
calmamente sentados aí nos bancos, passarem para lá antes de
amanhã..."
O resultado do sermão foi como se Deus arrancasse um véu dos
olhos da multidão para contemplar a realidade e o horror da
posição em que estavam. Nessa altura o sermão foi interrompido
pelos gemidos dos homens e os gritos das mulheres; quase
todos ficaram de pé, ou caídos no chão. Foi como se um furacão
soprasse e destruísse uma floresta. Durante a noite inteira a
cidade de Enfield ficou como uma fortaleza sitiada. Ouvia-se, em
quase todas as casas, o clamor das almas que, até aquela hora,
confiavam na sua própria justiça. Esperavam que, a qualquer
momento, o Cristo descesse dos céus com os anjos e apóstolos
ao lado, e que os túmulos entregassem os mortos que neles
havia.
Tais vitórias, contra o reino das trevas, foram ganhas de
joelhos. Edwards não abandonara, nem deixara de gozar os
privilégios das orações, costume que vinha desde a meninice.
Continuou a freqüentar, também, os lugares solitários na floresta
onde podia ter comunhão com Deus. Como um exemplo citamos
a sua experiência com a idade de trinta e quatro anos, quando
entrou na floresta, a cavalo. Lá, prostrado em terra, foi-lhe
concedido ter uma visão tão preciosa da graça, amor e
humilhação de Cristo como Mediador, que passou uma hora
vencido por uma torrente de lágrimas e pranto.
Como era de esperar, o Maligno tentou anular a obra
gloriosa do Espírito Santo no "Grande Despertamento",
atribuindo tudo ao fanatismo. Em sua defesa Edwards escreveu :
"Deus, conforme as Escrituras, faz coisas extraordinárias. Há
motivos para crer, pelas profecias da Bíblia, que sua obra mais
maravilhosa seria feita nas últimas épocas do mundo. Nada se
pode opor às manifestações físicas, como as lágrimas, gemidos,
gritos, convulsões, falta de forças... De fato, é natural esperar, ao
lembrarmo-nos da relação entre o corpo e o espírito, que tais
coisas aconteçam. Assim falam as Escrituras: do carcereiro que
caiu perante Paulo e Silas, angustiado e tremendo; do Salmista
que exclamou, sob a convicção do pecado: 'Envelheceram os
meus ossos pelo meu bramido durante o dia todo' (Salmo 32.3);
dos discípulos, que, na tempestade do lago, clamaram de medo;
da Noiva, do Cântico dos Cânticos, que ficou vencida, pelo amor
de Cristo, até desfalecer..."
Certo é que na Nova Inglaterra começou, em 1740, um
dos maiores avivamentos dos tempos modernos. É igualmente
certo que este movimento se iniciou, não com os sermões
célebres de Edwards, mas com a firme convicção deste, de que
há uma "obra direta que o Espírito divino faz na alma humana".
Note-se bem: Não foram seus sermões monótonos, nem a
eloqüência extraordinária de alguns, como Jorge Whitefield, mas,
sim, a obra do Espírito Santo no coração dos mortos
espiritualmente, que, "começando em Northampton, espalhou-se
por toda a Nova Inglaterra e pelas colônias da América do Norte,
chegando até a Escócia e a Inglaterra". De uma época de maior
decadência, a Igreja de Cristo, entre a população escassa da
Nova Inglaterra, despertou e foram arrebatadas de trinta a
cinqüenta mil almas do Inferno durante um período de dois a
três anos.
No meio das suas lutas, sem ninguém esperar, a vida de
Jônatas Edwards foi tirada da Terra. Apareceu a varíola em
Princeton e um hábil médico foi chamado de Filadélfia para
inocular os estudantes. O nosso pregador e duas de suas filhas
foram também vacinados. Na febre que resultou, as forças de
nosso herói diminuíram gradualmente até que, um mês depois,
faleceu.
Assim diz um de seus biógrafos: "Em todo o mundo onde
se falava o inglês, era considerado o maior erudito desde os dias
do apóstolo Paulo ou de Agostinho".
Para nós, a vida de Jônatas Edwards é uma das muitas
provas de que Deus não quer que desprezemos as faculdades
intelectuais que Ele nos concede, mas que as desenvolvamos,
sob a direção do Espírito Santo, e que as entreguemos
desinteressadamente para o seu uso.
(Extraido do Livro Heróis da Fé,Orlando Boyer)
JORGE WHITEFIELD - PREGADOR AO AR LIVRE (1714-1770)
Mais de 100 mil homens e mulheres rodeavam o pregador,
há mais de duzentos anos, em Cambuslang, Escócia. As palavras
do sermão, vivificadas pelo Espírito Santo, ouviam-se
distintamente em todas as partes que formavam esse mar
humano. É-nos difícil fazer uma idéia do vulto da multidão de 10
mil penitentes que responderam ao apelo para se entregarem ao
Salvador. Estes acontecimentos servem-nos como um dos
poucos exemplos do cumprimento das palavras de Jesus: "Na
verdade vos digo que aquele que crê em mim também fará as
obras que eu faço, e as fará maiores do que estas, porque vou
para meu Pai" (João 14.12).
Havia "como um fogo ardente encerrado nos ossos" deste
pregador, que era Jorge Whitefield. Ardia nele um zelo santo de
ver todas as pessoas libertas da escravidão do pecado. Durante
um período de vinte e oito dias fez a incrível façanha de pregar a
10 mil pessoas diariamente. Sua voz se ouvia perfeitamente a
mais de um quilômetro de distância, apesar de fraco de físico e
de sofrer dos pulmões.Não havia prédio no qual coubessem os
auditórios e, nos países onde pregou, armava seu púlpito nos
campos, fora das cidades. Whitefield merece o título de príncipe
dos pregadores ao ar livre, porque pregava em média dez vezes
por semana, e isso fez durante um período de trinta e quatro
anos, em grande parte sob o teto construído por Deus -os céus.
A vida de Jorge Whitefield era um milagre. Nasceu em uma
taberna de bebidas alcoólicas. Antes de completar três anos, seu
pai faleceu. Sua mãe casou-se novamente, mas a Jorge foi
permitido continuar os estudos na escola. Na pensão de sua
mãe, fazia a limpeza dos quartos, lavava roupa e vendia bebidas
no bar. Estranho que pareça e apesar de não ser salvo,
interessava-se grandemente pela leitura das Escrituras, lendo a
Bíblia até alta noite preparando sermões. Na escola era
conhecido como orador: Sua eloqüência era natural e
espontânea, um dom extraordinário de Deus, dom que possuía
sem ele mesmo saber.
Custeou os próprios estudos em Pembroke College, Oxford,
servindo como garçom em um hotel. Depois de estar algum
tempo em Oxford, ajuntou-se ao grupo de estudantes a que
pertenciam João e Carlos Wesley. Passou muito tempo, como os
demais do grupo, jejuando e esforçando-se para mortificar a
carne, a fim de alcançar a salvação, sem compreender que "a
verdadeira religião é a união da alma com Deus e a formação de
Cristo em nós."
Acerca da sua salvação, escreveu algum tempo antes de
morrer: "Sei o lugar onde... Todas as vezes que vou a Oxford,
sinto-me impelido a ir primeiro a este lugar onde Jesus se
revelou a mim, pela primeira vez, e me deu o novo nascimento".
Com a saúde abalada, talvez pelo excesso de estudo,
Jorge voltou a casa para recuperá-la. Resolvido a não cair no
indiferentismo, inaugurou uma classe bíblica para jovens que,
como ele, desejavam orar e crescer na graça de Deus. Visitavam
diariamente os doentes e os pobres e, freqüentemente, os
prisioneiros nas cadeias, para orarem com eles e prestarem-lhes
qualquer serviço manual que pudessem. Jorge tinha no coração
um plano que consistia em preparar cem sermões e apresentarse
para ser separado para o ministério. Porém quando havia
preparado apenas um sermão, seu zelo era tanto, que a igreja
insistia em ordená-lo, tendo penas vinte e um anos apesar de ser
regra não aceitar ninguém para tal cargo, com menos de 23
anos.
O dia antes da sua separação para o ministério, passou-o
em jejum e oração. Acerca desse fato, ele escreveu: "À tarde,
retirei-me para um alto, perto da cidade, onde orei com instância
durante duas horas, pedindo a meu favor e também por aqueles
que estavam para ser separados comigo. No domingo, levanteime
de madrugada e orei sobre o assunto da epístola de Paulo a
Timóteo, especialmente sobre o preceito: 'Ninguém despreze a
tua mocidade'. Quando o ancião me impôs as suas mãos, se meu
vil coração não me engana, ofereci todo o meu espírito, alma e
corpo para o serviço no santuário de Deus... Posso testificar;
perante os céus e a terra, que dei-me a mim mesmo, quando o
ancião me impôs as mãos, para ser um mártir por aquele que foi
pregado na cruz em meu lugar".
Os lábios de Whitefield foram tocados pelo fogo divino do
Espírito Santo na ocasião da sua separação para o ministério. No
domingo seguinte, naquela época de gelo espiritual, pregou pela
primeira vez. Alguns se queixaram de que quinze dos ouvintes
enlouqueceram ao ouvirem o sermão. O ancião, porém,
compreendendo o que se passava, respondeu que seria muito
bom, se os quinze não se esquecessem da sua "loucura" antes
de chegar o outro domingo.
Whitefield nunca se esqueceu nem deixou de aplicar a si
as seguintes palavras do Doutor Delaney: "Desejo, todas as
vezes que subir ao púlpito, considerar essa oportunidade como a
última que me é dada de pregar, e a última dada ao povo de
ouvir". Alguém assim escreveu sobre uma de suas pregações:
"Quase nunca pregava sem chorar e sei que as suas lágrimas
eram sinceras. Ouvi-o dizer: 'Vós me censurais porque choro.
Mas, como posso conter-me, quando não chorais por vós
mesmos, apesar das vossas almas mortais estarem a beira da
destruição? Não sabeis se estais ouvindo o último sermão, ou
não, ou se jamais tereis outra oportunidade de chegar a Cristo!"
Chorava, às vezes, até parecer que estava morto e custava a
recuperar as forças. Diz-se que os corações da maioria dos
ouvintes eram derretidos pelo calor intenso de seu espírito,
como prata na fornalha do refinador.
Quando estudante no colégio de Oxford, seu coração ardia
de zelo e pequenos grupos de alunos se reuniam no seu quarto,
diariamente; eles eram movidos, como os discípulos logo depois
do derramamento do Espírito Santo, no Pentecoste. O Espírito
continuou a operar poderosamente nele e por ele durante o
resto da sua vida, porque nunca abandonou o costume de buscar
a presença de Deus. Dividia o dia em três partes: oito horas
sozinho com Deus e em estudos, oito horas para dormir e as
refeições, oito horas para o trabalho entre o povo. De joelhos, lia,
e orava sobre as leituras das Escrituras e recebia luz, vida e
poder. Lemos que numa das suas visitas aos Estados Unidos,
"passou a maior parte da viagem a bordo, sozinho em oração".
Alguém escreveu sobre ele: "Seu coração encheu-se tanto dos
céus que anelava por um lugar onde pudesse agradecer a Deus;
e sozinho, durante horas, chorava comovido pelo amor
consumidor do seu Senhor". Suas experiências no ministério
confirmavam a sua fé na doutrina do Espírito Santo, como o
Consolador ainda vivo, o poder de Deus operando atualmente
entre nós.
A pregação de Jorge Whitefield era feita de forma tão
vivida que parecia quase sobrenatural. Conta-se que, certa vez
pregando a alguns marinheiros, descreveu um navio perdido
num furacão. Tudo foi apresentado em manifestações tão reais
que, quando chegou ao ponto de descrever o barco afundando,
alguns marinheiros pularam dos assentos, gritando: "Às
baleeiras! Às baleeiras!". Em outro sermão falou acerca dum
cego andando na direção dum precipício desconhecido. A cena
foi tão real que, quando o pregador chegou ao ponto de
descrever a chegada do cego à beira do profundo abismo, o
camareiro-mor, Chesterfield, que assistia, deu um pulo gritando:
"Meu Deus! ele desapareceu!"
O segredo, porém, da grande colheita de almas salvas não
era a sua maravilhosa voz nem a sua grande eloqüência. Não era
também porque o povo tivesse o coração aberto para receber o
Evangelho, porque era tempo de grande decadência espiritual
entre os crentes.
Também não foi porque lhe faltasse oposição. Repetidas
vezes Whitefield pregou nos campos, porque as igrejas
fecharam-lhe as portas. Às vezes nem os hotéis queriam aceitálo
como hóspede. Em Basingstoke foi agredido a pauladas. Em
Staffordshire atiraram-lhe torrões de terra. Em Moorfield
destruíram a mesa que lhe servia de púlpito e arremessaram
contra ele o lixo da feira. Em Evesham, as autoridades, antes de
seu sermão, ameaçaram prendê-lo, se pregasse. Em Exeter,
enquanto pregava a dez mil pessoas, foi apedrejado de tal forma
que pensou haver chegado para ele a hora, como o
ensangüentado Estevão, de ser imediatamente chamado à
presença do Mestre. Em outro lugar, apedrejaram-no
novamente, até ficar coberto de sangue. Verdadeiramente
levava no corpo, até a morte, as marcas de Jesus.
O segredo de tais frutos na sua pregação era o seu amor
para com Deus. Quando ainda muito novo, passava noites
inteiras lendo a Bíblia, que muito amava. Depois de se converter,
teve a primeira daquelas experiências de sentir-se arrebatado,
ficando a sua alma inteiramente aberta, cheia, purificada,
iluminada da glória e levada a sacrificar-se, inteiramente, ao seu
Salvador. Desde então nunca mais foi indiferente em servir a
Deus, mas regozijava-se no alvo de trabalhar de toda a sua
alma, e de todas as suas forças, e de todo seu entendimento. Só
achava interesse nos cultos e escreveu para sua mãe que nunca
mais voltaria ao seu emprego. Consagrou a vida completamente
a Cristo. E a manifestação exterior daquela vida nunca excedia a
sua realidade interior, portanto, nunca mostrou cansaço nem
diminuiu a marcha durante o resto de sua vida.
Apesar de tudo, ele escreveu: "A minha alma era seca como o
deserto. Sentia-me como encerrado dentro duma armadura de
ferro. Não podia ajoelhar-me sem estar tomado de grandes
soluços e orava até ficar molhado de suor... Só Deus sabe
quantas noites fiquei prostrado, de cama, gemendo, por causa
do que sentia, e ordenando, em nome de Jesus, que Satanás se
apartasse de mim. Outras vezes passei dias e semanas inteiros
prostrado em terra, suplicando para ser liberto dos pensamentos
diabólicos que me distraíam. Interesse próprio, rebelião, orgulho
e inveja me atormentavam, um após outro, até que resolvi
vencê-los ou morrer. Lutei até Deus me conceder vitória sobre
eles".
Jorge Whitefield considerava-se um peregrino errante no
mundo, procurando almas. Nasceu, criou-se e diplomou-se na
Inglaterra. Atravessou o Atlântico treze vezes. Visitou a Escócia
quatorze vezes. Foi ao País de Gales várias vezes. Visitou uma
vez a Holanda. Passou quatro meses em Portugal. Nas
Bermudas, ganhou muitas almas para Cristo, como nos demais
lugares onde trabalhou.
Acerca do que sentiu em uma das viagens à colônia da
Geórgia, Whitefield escreveu: 'Foram-me concedidas manifestações
extraordinárias do alto. Cedo de manhã, ao meio-dia,
ao anoitecer e à meia-noite, de fato durante o dia inteiro, o
amado Jesus me visitava para renovar-me o coração. Se certas
árvores perto de Stonehourse pudessem falar, contariam acerca
da doce comunhão, que eu e algumas almas amadas
desfrutamos ali com Deus, sempre bendito. Às vezes, quando de
passeio, a minha alma fazia tais incursões pelas regiões celestes,
que parecia pronta a abandonar o corpo. Outras vezes sentia-me
tão vencido pela grandeza da majestade infinita de Deus, que
me prostrava em terra e entregava-lhe a alma, como um papel
em branco, para Ele escrever nela o que desejasse. De uma
noite nunca me esquecerei. Relampejava excessivamente. Eu
pregara a muitas pessoas e algumas ficaram receosas de voltar
a casa. Senti-me dirigido a acompanhá-las e aproveitar o ensejo
para as animar a se prepararem para a vinda do Filho do
homem. Oh! que gozo senti na minha alma! Depois de voltar,
enquanto alguns se levantavam das suas camas, assombrados
pelos relâmpagos que andavam pelo chão e brilhavam duma
parte do céu até outra, eu com mais um irmão ficamos no campo
adorando, orando, exultando ao nosso Deus e desejando a
revelação de Jesus dos céus, uma chama de fogo!"
- Como se pode esperar outra coisa a não ser que as
multidões, a quem Whitefield pregava, fossem levadas a buscar
a mesma Presença? Na sua biografia há um grande número de
exemplos como os seguintes: "Oh! quantas lágrimas foram
derramadas, com forte clamor, pelo amor do querido Senhor
Jesus! Alguns desmaiavam e quando recobravam as forças,
ouviam e desmaiavam de novo. Outros gritavam como quem
sente a ânsia da morte. E depois de eu findar o último discurso,
eu mesmo senti-me tão vencido pelo amor de Deus que quase
fiquei sem vida. Contudo, por fim, revivi e, depois de me
alimentar um pouco, estava fortalecido bastante para viajar
cerca de trinta quilômetros, até Nottingham. No caminho, a alma
alegrou-se cantando hinos. Chegamos quase à meia-noite;
depois de nos entregarmos a Deus em oração, deitamo-nos e
descansamos na proteção do querido Senhor Jesus. Oh! Senhor,
jamais existiu amor como o teu!"
Então Whitefield continuou, sem cansar: "No dia seguinte
em Fog's Manor, a concorrência aos cultos foi tão grande como
em Nottingham. O povo ficou tão quebrantado que, por todos os
lados, vi pessoas banhadas em lágrimas. A palavra era mais
cortante que espada de dois gumes e os gritos e gemidos
alcançavam o coração mais endurecido. Alguns tinham
semblantes pálidos como a palidez de morte; outros torciam as
mãos, cheios de angústia; ainda outros foram prostrados ao
chão, ao passo que outros caíam e eram aparados nos braços de
amigos. A maior parte do povo levantava os olhos para os céus,
clamando e pedindo a misericórdia de Deus. Eu, enquanto os
contemplava, só podia pensar em uma coisa: o grande dia.
Pareciam pessoas acordadas pela última trombeta, saindo dos
seus túmulos para o juízo."
"O poder da presença divina nos acompanhou até
Baskinridge, onde os arrependidos choravam e os salvos oravam,
lado a lado. O indiferentismo de muitos transformou-se em
assombro, e o assombro, depois, em grande alegria. Alcançou
todas as classes, idades e caracteres. A embriaguez foi
abandonada por aqueles que eram dominados por esse vício. Os
que haviam praticado qualquer ato de injustiça foram tomados
de remorso. Os que tinham furtado foram constrangidos a fazer
restituição. Os vingativos pediram perdão. Os pastores ficaram
ligados ao seu povo por um vínculo mais forte de compaixão. O
culto doméstico foi iniciado nos lares. Os homens foram levados
a estudar a Palavra de Deus e a terem comunhão com o seu Pai,
nos céus".
Mas não foi somente os países populosos que o povo afluiu
para o ouvir. Nos estados Unidos, quando eram ainda um país
novo, ajuntaram-se grandes multidões dos que moravam longe
um do outro, nas florestas. O famoso Benjamim Franklin, no seu
jornal, assim noticiou essas reuniões: "Quinta-feira o reverendo
Whitefield partiu de nossa cidade, acompanhado de cento e
cinqüenta pessoas a cavalo, com destino a Chester, onde pregou
a sete mil ouvintes, mais ou menos. Sexta-feira pregou duas
vezes em Willings Town a quase cinco mil; no sábado, em
Newcastle, pregou a cerca de duas mil e quinhentas, e na tarde
do mesmo dia, em Cristiana Bridge, pregou a quase três mil; no
domingo, em White Clay Creek, pregou duas vezes (descansando
uma meia hora entre os sermões a oito mil pessoas, das quais,
cerca de três mil, tinha vindo a cavalo. Choveu a maior parte do
tempo, porém, todos se conservaram em pé, ao ar livre".
Como Deus estendeu a sua mão para operar prodígios por
meio de seu servo, vê-se no seguinte: Num estrado perante a
multidão, depois de alguns momentos de oração em silêncio,
Whitefield anunciou de maneira solene o texto: "É ordenado aos
homens que morram uma só vez, e depois disto vem o juízo".
Depois de curto silêncio, ouviu-se um grito de horror, vindo dum
lugar entre a multidão. Um pregador presente foi até o local da
ocorrência, para saber o que tinha acontecido. Logo voltou e
disse: - "Irmão Whitefield, estamos entre os mortos e os que
estão morrendo. Uma alma imortal foi chamada à eternidade. O
anjo da destruição está passando sobre o auditório. Clame em
alta voz e.não cesse". Então foi anunciado ao povo que um dentre
a multidão havia morrido. Então Whitefield leu a segunda vez
o mesmo texto: "É ordenado aos homens que morram uma só
vez". Do local onde a Senhora Huntington estava em pé, veio
outro grito agudo. De novo, um tremor de horror passou por toda
a multidão quando anunciaram que outra pessoa havia morrido.
Whitefield, porém, em vez de ficar tomado de pânico, como os
demais, suplicou graça ao Ajudador invisível e começou, com
eloqüência tremenda, a prevenir os impenitentes do perigo. Não
devemos concluir, contudo, que ele era ou sempre solene ou
sempre veemente. Nunca houve quem experimentasse mais
formas de pregar do que ele.
Apesar da sua grande obra, não se pode acusar Whitefield
de procurar fama ou riquezas terrestres. Sentia fome e sede da
simplicidade e sinceridade divina. Dominava todos os seus
interesses e os transformava para glória do reino do seu Senhor.
Não ajuntou ao redor de si os seus convertidos para formar outra
denominação, como alguns esperavam. Não, apenas dava todo o
seu ser, mas queria "mais línguas, mais corpos, mais almas a
usar para o Senhor Jesus".
A maior parte de suas viagens à América do Norte foram
feitas a favor do orfanato que fundara na colônia da Geórgia.
Vivia na pobreza e esforçava-se para granjear o necessário para
o orfanato. Amava os órfãos ternamente, escrevendo-lhes cartas
e dirigindo-se a cada um pelo nome. Para muitas dessas
crianças, ele era o único pai, o único meio de elas terem o
sustento. Fez uma grande parte da sua obra evangelística entre
os órfãos e quase todos permaneceram crentes fiéis, sendo que
um bom número deles se tornaram ministros do Evangelho.
Whitefield não era de físico robusto: desde a mocidade
sofria quase constantemente, anelando, muitas vezes, partir e
estar com Cristo. A maior parte dos pregadores acham
impossível pregar quando estão enfermos como ele.
Assim foi que, aos 65 anos de idade, durante sua sétima
viagem à América do Norte, findou a sua carreira na Terra, uma
vida escondida com Cristo em Deus e derramada num sacrifício
de amor pelos homens. No dia antes de falecer, teve de esforçarse
para ficar em pé. Porém, ao levantar-se, em Exeter, perante
um auditório demasiado grande para caber em qualquer prédio,
o poder de Deus veio sobre ele e pregou, como de costume,
durante duas horas. Um dos que assistiram disse que "seu rosto
brilhava como o sol". O fogo aceso no seu coração no dia de
oração e jejum, quando da sua separação para o ministério,
ardeu até dentro dos seus ossos e nunca se apagou (Jeremias
20.9).Certo homem eminente dissera a Whitefield: "Não espero
que Deus chame o irmão, breve, para o lar eterno, mas quando
isso acontecer, regozijar-me-ei ao ouvir o seu testemunho". O
pregador respondeu: "Então ficará desapontado; morrerei
calado. A vontade de Deus é dar-me tantos ensejos para
testificar dele durante minha vida, que não me serão dados
outros na hora da morte".
E sua morte ocorreu como predissera.
Depois do sermão, em Exeter, foi a Newburyport para
passar a noite na casa do pastor. Ao subir para o quarto de
dormir, virou-se na escada e, com a vela na mão, proferiu uma
curta mensagem aos amigos que ali estavam e insistiam em que
pregasse.
Às duas horas da madrugada acordou. Faltava-lhe o fôlego
e pronunciou para o seu companheiro as suas últimas palavras
na Terra: "Estou morrendo".
No seu enterro, os sinos das igrejas de Newburyport
dobraram e as bandeiras ficaram a meia-haste. Ministros de toda
a parte vieram assistir aos funerais; milhares de pessoas não
conseguiram chegar perto da porta da igreja, por causa da
imensa multidão. Conforme seu pedido, foi enterrado sob o
púlpito da igreja.
Se quisermos os mesmos frutos de ver milhares salvos,
como Jorge Whitefield os teve, temos de seguir o seu exemplo de
oração e dedicação.
- Alguém pensa que é tarefa demais? Que diria Jorge
Whitefield, junto, agora, com os que levou a Cristo, se lhe
fizéssemos essa pergunta?
(Extraido do Livro Heróis da Fé,Orlando Boyer)
há mais de duzentos anos, em Cambuslang, Escócia. As palavras
do sermão, vivificadas pelo Espírito Santo, ouviam-se
distintamente em todas as partes que formavam esse mar
humano. É-nos difícil fazer uma idéia do vulto da multidão de 10
mil penitentes que responderam ao apelo para se entregarem ao
Salvador. Estes acontecimentos servem-nos como um dos
poucos exemplos do cumprimento das palavras de Jesus: "Na
verdade vos digo que aquele que crê em mim também fará as
obras que eu faço, e as fará maiores do que estas, porque vou
para meu Pai" (João 14.12).
Havia "como um fogo ardente encerrado nos ossos" deste
pregador, que era Jorge Whitefield. Ardia nele um zelo santo de
ver todas as pessoas libertas da escravidão do pecado. Durante
um período de vinte e oito dias fez a incrível façanha de pregar a
10 mil pessoas diariamente. Sua voz se ouvia perfeitamente a
mais de um quilômetro de distância, apesar de fraco de físico e
de sofrer dos pulmões.Não havia prédio no qual coubessem os
auditórios e, nos países onde pregou, armava seu púlpito nos
campos, fora das cidades. Whitefield merece o título de príncipe
dos pregadores ao ar livre, porque pregava em média dez vezes
por semana, e isso fez durante um período de trinta e quatro
anos, em grande parte sob o teto construído por Deus -os céus.
A vida de Jorge Whitefield era um milagre. Nasceu em uma
taberna de bebidas alcoólicas. Antes de completar três anos, seu
pai faleceu. Sua mãe casou-se novamente, mas a Jorge foi
permitido continuar os estudos na escola. Na pensão de sua
mãe, fazia a limpeza dos quartos, lavava roupa e vendia bebidas
no bar. Estranho que pareça e apesar de não ser salvo,
interessava-se grandemente pela leitura das Escrituras, lendo a
Bíblia até alta noite preparando sermões. Na escola era
conhecido como orador: Sua eloqüência era natural e
espontânea, um dom extraordinário de Deus, dom que possuía
sem ele mesmo saber.
Custeou os próprios estudos em Pembroke College, Oxford,
servindo como garçom em um hotel. Depois de estar algum
tempo em Oxford, ajuntou-se ao grupo de estudantes a que
pertenciam João e Carlos Wesley. Passou muito tempo, como os
demais do grupo, jejuando e esforçando-se para mortificar a
carne, a fim de alcançar a salvação, sem compreender que "a
verdadeira religião é a união da alma com Deus e a formação de
Cristo em nós."
Acerca da sua salvação, escreveu algum tempo antes de
morrer: "Sei o lugar onde... Todas as vezes que vou a Oxford,
sinto-me impelido a ir primeiro a este lugar onde Jesus se
revelou a mim, pela primeira vez, e me deu o novo nascimento".
Com a saúde abalada, talvez pelo excesso de estudo,
Jorge voltou a casa para recuperá-la. Resolvido a não cair no
indiferentismo, inaugurou uma classe bíblica para jovens que,
como ele, desejavam orar e crescer na graça de Deus. Visitavam
diariamente os doentes e os pobres e, freqüentemente, os
prisioneiros nas cadeias, para orarem com eles e prestarem-lhes
qualquer serviço manual que pudessem. Jorge tinha no coração
um plano que consistia em preparar cem sermões e apresentarse
para ser separado para o ministério. Porém quando havia
preparado apenas um sermão, seu zelo era tanto, que a igreja
insistia em ordená-lo, tendo penas vinte e um anos apesar de ser
regra não aceitar ninguém para tal cargo, com menos de 23
anos.
O dia antes da sua separação para o ministério, passou-o
em jejum e oração. Acerca desse fato, ele escreveu: "À tarde,
retirei-me para um alto, perto da cidade, onde orei com instância
durante duas horas, pedindo a meu favor e também por aqueles
que estavam para ser separados comigo. No domingo, levanteime
de madrugada e orei sobre o assunto da epístola de Paulo a
Timóteo, especialmente sobre o preceito: 'Ninguém despreze a
tua mocidade'. Quando o ancião me impôs as suas mãos, se meu
vil coração não me engana, ofereci todo o meu espírito, alma e
corpo para o serviço no santuário de Deus... Posso testificar;
perante os céus e a terra, que dei-me a mim mesmo, quando o
ancião me impôs as mãos, para ser um mártir por aquele que foi
pregado na cruz em meu lugar".
Os lábios de Whitefield foram tocados pelo fogo divino do
Espírito Santo na ocasião da sua separação para o ministério. No
domingo seguinte, naquela época de gelo espiritual, pregou pela
primeira vez. Alguns se queixaram de que quinze dos ouvintes
enlouqueceram ao ouvirem o sermão. O ancião, porém,
compreendendo o que se passava, respondeu que seria muito
bom, se os quinze não se esquecessem da sua "loucura" antes
de chegar o outro domingo.
Whitefield nunca se esqueceu nem deixou de aplicar a si
as seguintes palavras do Doutor Delaney: "Desejo, todas as
vezes que subir ao púlpito, considerar essa oportunidade como a
última que me é dada de pregar, e a última dada ao povo de
ouvir". Alguém assim escreveu sobre uma de suas pregações:
"Quase nunca pregava sem chorar e sei que as suas lágrimas
eram sinceras. Ouvi-o dizer: 'Vós me censurais porque choro.
Mas, como posso conter-me, quando não chorais por vós
mesmos, apesar das vossas almas mortais estarem a beira da
destruição? Não sabeis se estais ouvindo o último sermão, ou
não, ou se jamais tereis outra oportunidade de chegar a Cristo!"
Chorava, às vezes, até parecer que estava morto e custava a
recuperar as forças. Diz-se que os corações da maioria dos
ouvintes eram derretidos pelo calor intenso de seu espírito,
como prata na fornalha do refinador.
Quando estudante no colégio de Oxford, seu coração ardia
de zelo e pequenos grupos de alunos se reuniam no seu quarto,
diariamente; eles eram movidos, como os discípulos logo depois
do derramamento do Espírito Santo, no Pentecoste. O Espírito
continuou a operar poderosamente nele e por ele durante o
resto da sua vida, porque nunca abandonou o costume de buscar
a presença de Deus. Dividia o dia em três partes: oito horas
sozinho com Deus e em estudos, oito horas para dormir e as
refeições, oito horas para o trabalho entre o povo. De joelhos, lia,
e orava sobre as leituras das Escrituras e recebia luz, vida e
poder. Lemos que numa das suas visitas aos Estados Unidos,
"passou a maior parte da viagem a bordo, sozinho em oração".
Alguém escreveu sobre ele: "Seu coração encheu-se tanto dos
céus que anelava por um lugar onde pudesse agradecer a Deus;
e sozinho, durante horas, chorava comovido pelo amor
consumidor do seu Senhor". Suas experiências no ministério
confirmavam a sua fé na doutrina do Espírito Santo, como o
Consolador ainda vivo, o poder de Deus operando atualmente
entre nós.
A pregação de Jorge Whitefield era feita de forma tão
vivida que parecia quase sobrenatural. Conta-se que, certa vez
pregando a alguns marinheiros, descreveu um navio perdido
num furacão. Tudo foi apresentado em manifestações tão reais
que, quando chegou ao ponto de descrever o barco afundando,
alguns marinheiros pularam dos assentos, gritando: "Às
baleeiras! Às baleeiras!". Em outro sermão falou acerca dum
cego andando na direção dum precipício desconhecido. A cena
foi tão real que, quando o pregador chegou ao ponto de
descrever a chegada do cego à beira do profundo abismo, o
camareiro-mor, Chesterfield, que assistia, deu um pulo gritando:
"Meu Deus! ele desapareceu!"
O segredo, porém, da grande colheita de almas salvas não
era a sua maravilhosa voz nem a sua grande eloqüência. Não era
também porque o povo tivesse o coração aberto para receber o
Evangelho, porque era tempo de grande decadência espiritual
entre os crentes.
Também não foi porque lhe faltasse oposição. Repetidas
vezes Whitefield pregou nos campos, porque as igrejas
fecharam-lhe as portas. Às vezes nem os hotéis queriam aceitálo
como hóspede. Em Basingstoke foi agredido a pauladas. Em
Staffordshire atiraram-lhe torrões de terra. Em Moorfield
destruíram a mesa que lhe servia de púlpito e arremessaram
contra ele o lixo da feira. Em Evesham, as autoridades, antes de
seu sermão, ameaçaram prendê-lo, se pregasse. Em Exeter,
enquanto pregava a dez mil pessoas, foi apedrejado de tal forma
que pensou haver chegado para ele a hora, como o
ensangüentado Estevão, de ser imediatamente chamado à
presença do Mestre. Em outro lugar, apedrejaram-no
novamente, até ficar coberto de sangue. Verdadeiramente
levava no corpo, até a morte, as marcas de Jesus.
O segredo de tais frutos na sua pregação era o seu amor
para com Deus. Quando ainda muito novo, passava noites
inteiras lendo a Bíblia, que muito amava. Depois de se converter,
teve a primeira daquelas experiências de sentir-se arrebatado,
ficando a sua alma inteiramente aberta, cheia, purificada,
iluminada da glória e levada a sacrificar-se, inteiramente, ao seu
Salvador. Desde então nunca mais foi indiferente em servir a
Deus, mas regozijava-se no alvo de trabalhar de toda a sua
alma, e de todas as suas forças, e de todo seu entendimento. Só
achava interesse nos cultos e escreveu para sua mãe que nunca
mais voltaria ao seu emprego. Consagrou a vida completamente
a Cristo. E a manifestação exterior daquela vida nunca excedia a
sua realidade interior, portanto, nunca mostrou cansaço nem
diminuiu a marcha durante o resto de sua vida.
Apesar de tudo, ele escreveu: "A minha alma era seca como o
deserto. Sentia-me como encerrado dentro duma armadura de
ferro. Não podia ajoelhar-me sem estar tomado de grandes
soluços e orava até ficar molhado de suor... Só Deus sabe
quantas noites fiquei prostrado, de cama, gemendo, por causa
do que sentia, e ordenando, em nome de Jesus, que Satanás se
apartasse de mim. Outras vezes passei dias e semanas inteiros
prostrado em terra, suplicando para ser liberto dos pensamentos
diabólicos que me distraíam. Interesse próprio, rebelião, orgulho
e inveja me atormentavam, um após outro, até que resolvi
vencê-los ou morrer. Lutei até Deus me conceder vitória sobre
eles".
Jorge Whitefield considerava-se um peregrino errante no
mundo, procurando almas. Nasceu, criou-se e diplomou-se na
Inglaterra. Atravessou o Atlântico treze vezes. Visitou a Escócia
quatorze vezes. Foi ao País de Gales várias vezes. Visitou uma
vez a Holanda. Passou quatro meses em Portugal. Nas
Bermudas, ganhou muitas almas para Cristo, como nos demais
lugares onde trabalhou.
Acerca do que sentiu em uma das viagens à colônia da
Geórgia, Whitefield escreveu: 'Foram-me concedidas manifestações
extraordinárias do alto. Cedo de manhã, ao meio-dia,
ao anoitecer e à meia-noite, de fato durante o dia inteiro, o
amado Jesus me visitava para renovar-me o coração. Se certas
árvores perto de Stonehourse pudessem falar, contariam acerca
da doce comunhão, que eu e algumas almas amadas
desfrutamos ali com Deus, sempre bendito. Às vezes, quando de
passeio, a minha alma fazia tais incursões pelas regiões celestes,
que parecia pronta a abandonar o corpo. Outras vezes sentia-me
tão vencido pela grandeza da majestade infinita de Deus, que
me prostrava em terra e entregava-lhe a alma, como um papel
em branco, para Ele escrever nela o que desejasse. De uma
noite nunca me esquecerei. Relampejava excessivamente. Eu
pregara a muitas pessoas e algumas ficaram receosas de voltar
a casa. Senti-me dirigido a acompanhá-las e aproveitar o ensejo
para as animar a se prepararem para a vinda do Filho do
homem. Oh! que gozo senti na minha alma! Depois de voltar,
enquanto alguns se levantavam das suas camas, assombrados
pelos relâmpagos que andavam pelo chão e brilhavam duma
parte do céu até outra, eu com mais um irmão ficamos no campo
adorando, orando, exultando ao nosso Deus e desejando a
revelação de Jesus dos céus, uma chama de fogo!"
- Como se pode esperar outra coisa a não ser que as
multidões, a quem Whitefield pregava, fossem levadas a buscar
a mesma Presença? Na sua biografia há um grande número de
exemplos como os seguintes: "Oh! quantas lágrimas foram
derramadas, com forte clamor, pelo amor do querido Senhor
Jesus! Alguns desmaiavam e quando recobravam as forças,
ouviam e desmaiavam de novo. Outros gritavam como quem
sente a ânsia da morte. E depois de eu findar o último discurso,
eu mesmo senti-me tão vencido pelo amor de Deus que quase
fiquei sem vida. Contudo, por fim, revivi e, depois de me
alimentar um pouco, estava fortalecido bastante para viajar
cerca de trinta quilômetros, até Nottingham. No caminho, a alma
alegrou-se cantando hinos. Chegamos quase à meia-noite;
depois de nos entregarmos a Deus em oração, deitamo-nos e
descansamos na proteção do querido Senhor Jesus. Oh! Senhor,
jamais existiu amor como o teu!"
Então Whitefield continuou, sem cansar: "No dia seguinte
em Fog's Manor, a concorrência aos cultos foi tão grande como
em Nottingham. O povo ficou tão quebrantado que, por todos os
lados, vi pessoas banhadas em lágrimas. A palavra era mais
cortante que espada de dois gumes e os gritos e gemidos
alcançavam o coração mais endurecido. Alguns tinham
semblantes pálidos como a palidez de morte; outros torciam as
mãos, cheios de angústia; ainda outros foram prostrados ao
chão, ao passo que outros caíam e eram aparados nos braços de
amigos. A maior parte do povo levantava os olhos para os céus,
clamando e pedindo a misericórdia de Deus. Eu, enquanto os
contemplava, só podia pensar em uma coisa: o grande dia.
Pareciam pessoas acordadas pela última trombeta, saindo dos
seus túmulos para o juízo."
"O poder da presença divina nos acompanhou até
Baskinridge, onde os arrependidos choravam e os salvos oravam,
lado a lado. O indiferentismo de muitos transformou-se em
assombro, e o assombro, depois, em grande alegria. Alcançou
todas as classes, idades e caracteres. A embriaguez foi
abandonada por aqueles que eram dominados por esse vício. Os
que haviam praticado qualquer ato de injustiça foram tomados
de remorso. Os que tinham furtado foram constrangidos a fazer
restituição. Os vingativos pediram perdão. Os pastores ficaram
ligados ao seu povo por um vínculo mais forte de compaixão. O
culto doméstico foi iniciado nos lares. Os homens foram levados
a estudar a Palavra de Deus e a terem comunhão com o seu Pai,
nos céus".
Mas não foi somente os países populosos que o povo afluiu
para o ouvir. Nos estados Unidos, quando eram ainda um país
novo, ajuntaram-se grandes multidões dos que moravam longe
um do outro, nas florestas. O famoso Benjamim Franklin, no seu
jornal, assim noticiou essas reuniões: "Quinta-feira o reverendo
Whitefield partiu de nossa cidade, acompanhado de cento e
cinqüenta pessoas a cavalo, com destino a Chester, onde pregou
a sete mil ouvintes, mais ou menos. Sexta-feira pregou duas
vezes em Willings Town a quase cinco mil; no sábado, em
Newcastle, pregou a cerca de duas mil e quinhentas, e na tarde
do mesmo dia, em Cristiana Bridge, pregou a quase três mil; no
domingo, em White Clay Creek, pregou duas vezes (descansando
uma meia hora entre os sermões a oito mil pessoas, das quais,
cerca de três mil, tinha vindo a cavalo. Choveu a maior parte do
tempo, porém, todos se conservaram em pé, ao ar livre".
Como Deus estendeu a sua mão para operar prodígios por
meio de seu servo, vê-se no seguinte: Num estrado perante a
multidão, depois de alguns momentos de oração em silêncio,
Whitefield anunciou de maneira solene o texto: "É ordenado aos
homens que morram uma só vez, e depois disto vem o juízo".
Depois de curto silêncio, ouviu-se um grito de horror, vindo dum
lugar entre a multidão. Um pregador presente foi até o local da
ocorrência, para saber o que tinha acontecido. Logo voltou e
disse: - "Irmão Whitefield, estamos entre os mortos e os que
estão morrendo. Uma alma imortal foi chamada à eternidade. O
anjo da destruição está passando sobre o auditório. Clame em
alta voz e.não cesse". Então foi anunciado ao povo que um dentre
a multidão havia morrido. Então Whitefield leu a segunda vez
o mesmo texto: "É ordenado aos homens que morram uma só
vez". Do local onde a Senhora Huntington estava em pé, veio
outro grito agudo. De novo, um tremor de horror passou por toda
a multidão quando anunciaram que outra pessoa havia morrido.
Whitefield, porém, em vez de ficar tomado de pânico, como os
demais, suplicou graça ao Ajudador invisível e começou, com
eloqüência tremenda, a prevenir os impenitentes do perigo. Não
devemos concluir, contudo, que ele era ou sempre solene ou
sempre veemente. Nunca houve quem experimentasse mais
formas de pregar do que ele.
Apesar da sua grande obra, não se pode acusar Whitefield
de procurar fama ou riquezas terrestres. Sentia fome e sede da
simplicidade e sinceridade divina. Dominava todos os seus
interesses e os transformava para glória do reino do seu Senhor.
Não ajuntou ao redor de si os seus convertidos para formar outra
denominação, como alguns esperavam. Não, apenas dava todo o
seu ser, mas queria "mais línguas, mais corpos, mais almas a
usar para o Senhor Jesus".
A maior parte de suas viagens à América do Norte foram
feitas a favor do orfanato que fundara na colônia da Geórgia.
Vivia na pobreza e esforçava-se para granjear o necessário para
o orfanato. Amava os órfãos ternamente, escrevendo-lhes cartas
e dirigindo-se a cada um pelo nome. Para muitas dessas
crianças, ele era o único pai, o único meio de elas terem o
sustento. Fez uma grande parte da sua obra evangelística entre
os órfãos e quase todos permaneceram crentes fiéis, sendo que
um bom número deles se tornaram ministros do Evangelho.
Whitefield não era de físico robusto: desde a mocidade
sofria quase constantemente, anelando, muitas vezes, partir e
estar com Cristo. A maior parte dos pregadores acham
impossível pregar quando estão enfermos como ele.
Assim foi que, aos 65 anos de idade, durante sua sétima
viagem à América do Norte, findou a sua carreira na Terra, uma
vida escondida com Cristo em Deus e derramada num sacrifício
de amor pelos homens. No dia antes de falecer, teve de esforçarse
para ficar em pé. Porém, ao levantar-se, em Exeter, perante
um auditório demasiado grande para caber em qualquer prédio,
o poder de Deus veio sobre ele e pregou, como de costume,
durante duas horas. Um dos que assistiram disse que "seu rosto
brilhava como o sol". O fogo aceso no seu coração no dia de
oração e jejum, quando da sua separação para o ministério,
ardeu até dentro dos seus ossos e nunca se apagou (Jeremias
20.9).Certo homem eminente dissera a Whitefield: "Não espero
que Deus chame o irmão, breve, para o lar eterno, mas quando
isso acontecer, regozijar-me-ei ao ouvir o seu testemunho". O
pregador respondeu: "Então ficará desapontado; morrerei
calado. A vontade de Deus é dar-me tantos ensejos para
testificar dele durante minha vida, que não me serão dados
outros na hora da morte".
E sua morte ocorreu como predissera.
Depois do sermão, em Exeter, foi a Newburyport para
passar a noite na casa do pastor. Ao subir para o quarto de
dormir, virou-se na escada e, com a vela na mão, proferiu uma
curta mensagem aos amigos que ali estavam e insistiam em que
pregasse.
Às duas horas da madrugada acordou. Faltava-lhe o fôlego
e pronunciou para o seu companheiro as suas últimas palavras
na Terra: "Estou morrendo".
No seu enterro, os sinos das igrejas de Newburyport
dobraram e as bandeiras ficaram a meia-haste. Ministros de toda
a parte vieram assistir aos funerais; milhares de pessoas não
conseguiram chegar perto da porta da igreja, por causa da
imensa multidão. Conforme seu pedido, foi enterrado sob o
púlpito da igreja.
Se quisermos os mesmos frutos de ver milhares salvos,
como Jorge Whitefield os teve, temos de seguir o seu exemplo de
oração e dedicação.
- Alguém pensa que é tarefa demais? Que diria Jorge
Whitefield, junto, agora, com os que levou a Cristo, se lhe
fizéssemos essa pergunta?
(Extraido do Livro Heróis da Fé,Orlando Boyer)
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